6. MEDICINA E BEM-ESTAR 10.4.13

1. US$ 100 MILHES NA CABEA
2. O FIM DA CEGUEIRA DA DIABETES
3. UM NOVO CORPO EM 3D

1. US$ 100 MILHES NA CABEA
EUA lanam o mais ambicioso projeto de pesquisa sobre o funcionamento cerebral. Vm a grandes avanos no tratamento de depresso, Alzheimer, Parkinson, dor e esquizofrenia 
Cilene Pereira

 FUTURO - Segundo Obama, uma das metas do projeto  a criao de tecnologias capazes de monitorar a atividade dos neurnios
 
Entender como cerca de 85 bilhes de neurnios trabalham em conjunto para que pensamentos se transformem em atos, movimentos sejam executados, sentimentos sejam processados, lembranas sejam armazenadas. Essa  a meta do mais ambicioso projeto idealizado at hoje para desvendar como opera o crebro humano, anunciado na ltima semana pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Batizada de BRAIN (crebro, em ingls), a empreitada reunir os principais centros de pesquisa americanos e receber custeio do governo e da iniciativa privada daquele pas. Para 2014, sero investidos US$ 100 milhes da administrao federal e esperam-se mais US$ 158 milhes de empresas. A partir das respostas obtidas, a cincia vislumbra uma revoluo no entendimento do intelecto humano e tambm progressos jamais vistos no tratamento de doenas associadas ao mau funcionamento de estruturas cerebrais, como Parkinson, Alzheimer, esquizofrenia e depresso.
 
 verdade que avanos notveis j foram feitos na compreenso dessas questes. Mas at hoje, por exemplo, o mximo que se conseguiu foi decifrar a atividade de poucos neurnios de cada vez. Nunca se obteve um retrato de como todos atuam simultaneamente e o papel das 100 substncias responsveis por fazer a comunicao entre eles, os chamados neurotransmissores. E sabe-se que cada circuito neuronal  composto por milhares ou centenas de milhares de clulas nervosas absolutamente interconectadas. Porm, como j definiram pesquisadores, esse emaranhado permanece como uma selva impenetrvel onde muitos cientistas j se perderam.

Por sua ambio, o programa est sendo comparado  magnitude do que foi o projeto Genoma, que no incio dos anos 1990 se props, e conseguiu anos mais tarde, a decodificar o DNA humano. E assim como ocorreu com o programa Genoma e outros feitos histricos na cincia, os pesquisadores acreditam que muitos benefcios viro antes mesmo da conquista final. No caso, a obteno de um mapa completo do crebro. J existem tratamentos que podero ser melhorados a partir das tecnologias que sero criadas para o projeto, disse  ISTO George Church, professor de gentica da Escola de Medicina de Harvard e um dos que participaro do BRAIN. O cientista criou uma mquina capaz de produzir um DNA artificial, aparelho que poder ser usado nas investigaes que agora comeam.
 
De fato, diversos recursos sero desenvolvidos para que a atividade conjunta dos neurnios, por exemplo, seja monitorada. Entre eles esto aparelhos de imagem mais precisos e micro e nanochips capazes de registrar e enviar as informaes em tempo real. Esse tipo de tecnologia  na qual vrios grupos j esto trabalhando  ser de grande utilidade para implantes (de retina, por exemplo) e tratamentos de estimulao cerebral profunda (leia mais no texto abaixo) atualmente indicados para enfermidades como Parkinson, depresso e dor.


2. O FIM DA CEGUEIRA DA DIABETES
Medicamentos de ltima gerao impedem o avano do edema macular, uma das principais causas da perda de viso em diabticos 
Mnica Tarantino

Avanos da pesquisa em oftalmologia esto permitindo, pela primeira vez, a recuperao da viso de pessoas que passaram a enxergar apenas borres ou ficaram cegas por culpa do edema macular diabtico (EMD). A doena  marcada pelo acmulo de lquidos na mcula, a poro central da retina, associada  viso detalhada usada para ler e discernir rostos. Estudos recentes mostram que remdios para impedir o aparecimento de vasos sanguneos na regio so eficientes para barrar o avano da enfermidade.

LUZ - Urso recuperou mais de 70% da viso com novo tratamento
 
Recentemente, a Food and Drug Administration, agncia do governo americano responsvel pela liberao de remdios, aprovou a primeira substncia com essas caractersticas para combater o edema, o ranibizumabe (nome comercial Lucentis). No Brasil, a autorizao para sua comercializao foi dada h trs meses. O remdio bloqueia o chamado fator de crescimento endotelial (VEGF), que aumenta a permeabilidade dos vasos sanguneos e permite o vazamento de fluidos para a mcula. O produto j era usado contra a forma hemorrgica da degenerao macular relacionada  idade, a primeira causa mundial de cegueira. Outros medicamentos do gnero, como o aflibercepte (nome comercial Eylia), sero lanados com a mesma finalidade. Alm disso, mais um remdio integrante de uma nova classe dever estar disponvel em trs anos.
 
At o momento, o melhor tratamento era cauterizar com laser ao redor da rea afetada. Isso continha a progresso da enfermidade, mas raramente devolvia a viso. A estratgia agora  combinar o laser com as novas medicaes. Nos estudos clnicos, um tero dos voluntrios com edema recuperara linhas de viso. Alguns voltaram a dirigir, diz Andr Gomes, pesquisador da enfermidade e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Retina e Vtreo.  um avano para tratar problemas em uma rea na qual nem sempre o laser ou outros medicamentos davam bons resultados, afirma Keila Carvalho, chefe do Departamento de Oftalmologia da Faculdade de Cincias Mdicas da Universidade Estadual de Campinas. Ela no participa de pesquisas sobre a doena.

O industrial Drcio Urso, 68 anos, tratou-se com o ranibizumabe e laser. Consegui recuperar mais de 70% da viso, diz. O vendedor Sandro Peres, 41 anos, enfrenta dificuldades por causa do preo do tratamento (cerca de R$ 4 mil cada aplicao). Melhorei, mas no posso continuar a terapia porque no consigo obter o remdio no SUS nem do convnio, diz ele, que ficou cego em poucos meses por causa da evoluo rpida da doena. Hoje, Peres aplica a droga uma vez a cada 45 dias em um dos olhos. Deveria usar nos dois a cada 30 dias. Uma comisso avaliar a introduo do remdio no SUS. Atualmente, o modo mais eficiente e gil de obter esse remdio  recorrer ao Poder Judicirio, diz o advogado Julius Conforti, especialista em direito da sade.  


3. UM NOVO CORPO EM 3D
Tecnologia que imprime moldes e prteses permite a reconstruo do organismo com uma perfeio nunca vista antes
Monique Oliveira e Juliana Tiraboschi 

RESTAURAO - Parte do crnio de Kssia foi reconstruda com auxlio do recurso 
 
Mdicos do Reino Unido anunciaram na semana passada um feito memorvel da medicina regenerativa. Um homem de 60 anos teve seu rosto completamente reconstrudo com uma prtese facial feita a partir de um molde impresso por uma mquina 3D. Ele tinha uma depresso no lado do rosto causada pela retirada de um tumor maligno que o deixara deformado. O equipamento foi capaz de criar o molde do rosto e, logo depois, uma prtese foi produzida com as medidas exatas e totalmente harmonizada com sua face.
 
A histria do paciente ingls  o exemplo mais recente da revoluo que o uso da tecnologia da impressora 3D est causando nos cuidados com a sade. A mquina  capaz de criar produtos tridimensionais por meio da adio em camadas da matria-prima utilizada. Ela pode, assim, ler os dados de um projeto de um software e transform-lo em produto tridimensional, adicionando tinta etapa por etapa. Seu grande mrito  a produo de detalhes minuciosos. Em outras palavras, de concretizar a perfeio. Na medicina, isso significa a produo de moldes, prteses, crnio, mandbulas e at vasos sanguneos nas mesmas formas e medidas das estruturas originais que, por motivos diversos, precisam ser repostas ou substitudas.

FORMAS - Um molde em trs dimenses ajudou a refazer o rosto de um paciente ingls desfigurado por um tumor
 
Alguns dos mais expressivos avanos na rea podem ser vistos no Centro de Tecnologia da Informao Renato Archer (CTI). Localizado em Campinas, no interior de So Paulo, o servio  vinculado ao Ministrio da Cincia e Tecnologia. Nos ltimos anos, o CTI estabeleceu um setor de tecnologias tridimensionais que elevou a pesquisa 3D no Brasil a outro patamar. De l saiu o InVesalius, um leitor de ressonncia magntica em trs dimenses que pode se comunicar diretamente com uma impressora 3D.
 
O sistema ajuda no planejamento de cirurgias complexas, transplantes e localizao de tumores. Nesse ltimo caso, por exemplo, o mdico pode contatar o centro paulista gratuitamente e planejar melhor a cirurgia para extrair as clulas doentes. Com os dados da ressonncia, os pesquisadores do CTI preparam um molde 3D no InVesalius, a impressora o imprime e o mdico recebe um molde exato do rgo e do tumor do paciente para estudar a forma mais adequada de realizar o procedimento. Com isso, o cirurgio no v o paciente por dentro s no momento da operao, explica o engenheiro Jorge Vicente da Silva, diretor da diviso de tecnologias tridimensionais do CTI. Usado em mais de 62 pases, o software  de cdigo aberto e gratuito  o nico do tipo no mundo.

CINCIA - Em Campinas (SP), o russo Mironov (acima) quer criar vasos sanguneos.
 Seu colega Jorge Vicente coordena pesquisas para a confeco de prteses

No servio paulista, h seis mquinas de impresso 3D. Nelas tambm so produzidos moldes perfeitos para a confeco de prteses personalizadas. O neurocirurgio Joo Flvio Zullo, do Hospital Estadual Sumar, administrado pela Universidade Estadual de Campinas, vale-se da tcnica para refazer o crnio de pessoas vtimas de trauma ou que tiveram parte da estrutura craniana extrada para a realizao de neurocirurgias, por exemplo. Entre outras indicaes, ele j a usou para refazer a testa de um paciente que teve a parte frontal do crnio retirada.
 
O mesmo equipamento foi utilizado para fabricar um molde que serviu de base para a reconstruo da parte lateral do crnio da pedagoga Kssia Helen de Andrade Silva, 21 anos. H dois anos, ela sofreu um acidente de moto e teve um pedao do crnio retirado para aliviar a presso intracraniana e permitir a retirada de um cogulo. Fiquei impressionada com o bom resultado, conta ela, hoje completamente recuperada. Os brasileiros chegaram a confeccionar o molde de uma prtese craniana capaz de acompanhar o crescimento de um garoto vtima de um acidente. Ele s precisou de uma cirurgia, porque a prtese foi projetada especialmente para ele e a evoluo do seu crescimento, contou Jorge Vicente.

MOVIMENTO - A prtese do brao da garota Emma foi totalmente feita com o aparelho
 
Algumas experincias vo ainda mais alm. Nos Estados Unidos, a menina Emma Lavelle, 2 anos, recebeu um brao mecnico feito do incio ao fim com tecnologia 3D  tanto o molde quanto a prtese em si foram construdos com a impressora. Ela nasceu com artrogripose mltipla congnita, uma sndrome rara que provoca ms formaes responsveis por impedir os movimentos. E em breve haver novidades para a regio do crebro. Em fevereiro, a empresa americana Oxford Performance Materials recebeu a liberao pelo Food and Drug Administration (FDA) para a produo do primeiro crnio que poder ser totalmente fabricado e implantado a partir do recurso.
 
Com a confirmao de que a impressora 3D representa um progresso fantstico na chamada medicina regenerativa, vrios grupos de pesquisa se dedicam agora a encontrar as melhores matrias-primas para alimentar essas mquinas. O ideal,  claro,  que sejam cada vez mais compatveis com o organismo humano. Por isso, o que se v hoje  uma corrida dos cientistas para produzir biomateriais. Nesse esforo, j se conseguiu imprimir clulas-tronco adultas (capazes de gerar determinados tecidos), mas um dos maiores feitos nesse mbito foi anunciado em fevereiro pela Universidade Heriot-Watt, de Edimburgo, na Esccia. Pesquisadores revelaram ter usado uma impressora 3D para imprimir clulas-tronco embrionrias, muito mais versteis do que as clulas adultas. E elas mantiveram sua capacidade de se transformar em qualquer tecido humano, disse  ISTO o pesquisador Will Shu, autor da faanha.

No Brasil, o cirurgio russo Vladimir Mironov coordena no CTI projetos para a confeco de biomquinas e biomateriais. Neste momento, ele trabalha para a construo de vasos sanguneos a partir dos recursos 3D. A pesquisa ainda est em estgio inicial, mas o cientista est animado. Os projetos no Brasil podero contribuir muito para a expanso do uso dessa tecnologia.

